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sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Antes do Começo- texto de Nilton Bonder sobre Simcha Torá

Um dos comentários mais comuns que encontramos em relação ao princípio do Livro de Genesis é a pergunta: e antes? Mesmo a teologia judaica que tem por hábito não querer explicitar a realidade para além dos limites da percepção humana, se pergunta: o que havia antes de "bereshit" (do começo)? Uma forma sagaz de fazer e não fazer esta pergunta ao mesmo tempo é querer interpretar o porque da Torá começar com a letra "beit" (segunda do alfabeto) e não a letra "alef" (a primeira do alfabeto).
A resposta mais sagaz ainda, pois contém além da explicação reminiscências da própria pergunta, diz que a letra "beit" é bastante apropriada para iniciar a Torá pois tem sua grafia quase como um quadrado com tres lados definidos e um em aberto. Os lados fechados bloqueiam o que vem antes, o que há para acima e para baixo. A interpretação é clara: a história é deste ponto para adiante… o que há acima e abaixo do nosso tempo ou da História não nos concerne nem mesmo que veio antes do começo.
No entanto, nós sabemos o que veio antes!
O dia de Simcha Torá é um dia de grande revelação. Não é a toa que os mestres chassídicos chamavam atenção para o fato de que a alegria pode ser a mais importante chave para profundos mistérios. Nós dançamos com a Torá e não nos damos conta, como dançamos também com a vida e não nos damos conta, de que dançar revela muito.


O que vem antes de "bereshit bara elohim" (e no início D'us criou…)? "U-le-chol ha-iad ha-chazaka"… E no tocante a tôda a mão forte, e a todos os grandes milagres que fez Moisés acontecer diante dos olhos de Israel". O que vem antes de Bereshit, o início da Torá, é o final da Torá: Ve-zot ha-bracha, o último trecho lido da Torá. Em Simchá Torá descobrimos este incrível segredo: o agora e o depois estão profundamente ao que foi antes. O tempo não é apenas curvo como propõe a física avançada - o tempo se enrola de fins em começos e começos em fins.

Afinal não é esta a experiência das gerações também? Da avó ou bisavó que conta a seu neto ou bisneto, o novo começo, sobre "os grandes feitos ocorridos no passado". Estes feitos onde a "iad chazaka", onde a mão forte de D'us se fez presente, é tudo que resta na memória corroída da velhice. Os nomes, os lugares e a memória próxima se vão e ficam junto com os detalhes do passado longínquo, também as lembranças dos grandes feitos - aqueles onde acreditamos que a "mão de D'us ou da vida" esteve envolvida.

O neto ou bisneto acreditar que a vovó que o tem no colo foi a menina sensual, uma pessoa ávida por conquistas, alguém que tinha medo de vir a crescer, que tinha medo de perder seus pais, que brigou pelo sustento, que alienou-se na preocupação apenas consigo… todas estas pessoas que o futuro guarda para quem é criança a avó ou o avô já foram.

Mas não é para saber que uma criança vem ao mundo. Vem sim para viver, para experimentar por si.

O que é o começo? É o lugar desde onde não faz sentido "saber" o que veio antes, mas o lugar a partir do qual faz sentido viver o que virá depois. Antecipar o que será porque já foi é a componente mais grave da depressão. Saber compreender o processo de "bereshit", o processo de dar inícios porque se deu fim é o grande segredo da própria vida. O shabat é baseado neste conceito: a semana se recria na medida em que a anterior realmente finda. Quando contabilizamos "a mão forte" que se apresentou na semana que passou, sabemos então enxergá-la como tendo sido finda.

Conta uma história Zen que um americano conversava com um Mestre aflito com seu futuro enquanto comia uma tangerina. Ele lhe contava sobre seus projetos para o futuro e o que desejava realizar enquanto arrancava a casca da tangerina e a engolia nervosamente. O americano desejava saber o que o Mestre pensava de seus planos. O Mestre lhe disse: "Não acho nada! Mas acho importante que você faça as pazes com os gomos da tangerina que está comendo. Se você não consegue aproveitar o que está em sua boca como pode fazer projetos para o futuro.

O começo, o bereshit, o início do projeto de D'us é a capacidade de não se perguntar tanto sobre o antes ou mesmo o depois. D'us come bem suas tangerinas, tanto que nos dá o sábado, o descanço como primeiro ensinamento a ser emulado.

Não tenha dúvida de que houve antes. Outros processos se desdobraram e maturaram até que este bereshit, o começo de nossa civilização tivesse surgido. Porém não nos cabe "saber" pois não é da ordem do que experimentaremos. Neste meio tempo, curiosidades saciadas ou não, a tangerina continua muito especial. Infeliz daquele que não a saboreia - este ainda não "começou".
Mas se você é muito curioso mesmo saiba para mistério e terror (duas experiências do saber) que o que veio antes do começo foi um fim.

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