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terça-feira, 2 de novembro de 2010

Nos envie sugestões de seus livros sobre judaismo, história e Israel por email!

Aqui Julia Guivant coloca três recomendações.

Modernidade e Holocausto
Zygmunt Bauman
Editora: Jorge Zahar

Nos Passos de Hannah Arendt
Laure Adler
Editora:Record

Veja os comentários e leia trechos no link embaixo!!


Judaismo Para Todos SORJ, BERNARDO
Editora: CIVILIZAÇAO BRASILEIRA, 2009.


 
Sobre Modernidade e Holocausto:

Este livro - que fez jus ao prêmio Amalfi (1989), concedido ao melhor livro de sociologia publicado na Europa - discute o que a sociologia pode nos ensinar sobre o Holocausto, concentrando-se mais particularmente, porém, nas lições que o Holocausto tem a oferecer à sociologia.
Zygmunt Bauman, sociólogo de origem polonesa, ressalta aqui como o significado do Holocausto pôde ser subestimado em nossa compreensão de modernidade: ora o Holocausto é reduzido a algo que aconteceu com os judeus, ora é visto como representando aspectos repulsivos da vida social que o progresso da modernidade irá gradualmente superar.
Não há nada comparável a este livro na literatura sociológica. Sutil, porém intenso e perturbador, causará grande impacto tanto naqueles que lidam diretamente com a disciplina da sociologia como nos interessados por um dos fenômenos mais terríveis de nosso tempo.

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Sobre a Biografia de Arendt

A vida do espírito (Veja, 9/5/2007)

Uma grande biografia de Hannah Arendt, figura
essencial para quem quer entender o século XX
Rinaldo Gama

Qualquer tentativa de compreender o que foi o século XX, no plano filosófico e político, passa necessariamente por duas obras: Origens do Totalitarismo (1951) e Eichmann em Jerusalém (1963), ambas de autoria de Hannah Arendt, alemã de ascendência judaica. Na primeira – dividida em "Anti-semitismo", "Imperialismo" e "Totalitarismo" –, ela procura analisar de que modo se forjou na Europa uma verdadeira máquina de destruição, capaz de levar ao horror do holocausto. Já no polêmico Eichmann, que nasceu de uma série de artigos publicados na revista The New Yorker, Hannah trata da "banalização do mal", a partir do julgamento de um nazista. Pensadora mas também personagem de um tempo espantosamente cruel, que sofreu na pele a perseguição do regime de Hitler – obrigada a fugir da Alemanha devido à sua origem judia, acabou se exilando nos Estados Unidos --, Hannah construiu uma sólida carreira filosófica baseando-se em reflexões sobre sua própria época, vale dizer, unindo pensamento e vivência. Apresentar essa extraordinária figura equilibrando as duas faces de sua trajetória foi o desafio que se impôs a francesa Laure Adler na alentada biografia Nos Passos de Hannah Arendt (tradução de Tatiana Salem Levy e Marcelo Jacques; Record; 644 páginas; 75 reais). O resultado: um retrato definitivo, escrito com clareza – apesar da complexidade natural de passagens que se aprofundam em temas discutidos por Hannah –, de uma das raras vozes femininas a surgir com destaque nos compêndios de filosofia.

Laure Adler não passa ao largo dos defeitos de Hannah – omitir, às vezes, o peso de contribuições alheias para suas idéias; quase nunca reconhecer os próprios equívocos; jamais reconhecer o verdadeiro valor intelectual de seu primeiro marido, Günther Anders (pseudônimo de Günther Stern), um dos pioneiros no estudo da ficção do checo Franz Kafka. A admiração, no entanto, se sobrepõe aos defeitos.

Nascida em 1906, no subúrbio de Linden, em Hannover, Johannah Arendt foi uma menina precoce. Quando o pai morreu, em 1913, não havia completado 7 anos de idade; mesmo assim, procurou consolar a mãe: "Pense – isso acontece com muitas mulheres", disparou, para estupefação da viúva. Na Universidade Marburg, ela conheceria Martin Heidegger, com quem iria iniciar um complicado relacionamento amoroso: o professor era casado e nem de longe cogitava separar-se da esposa. Em 1933, Heidegger aderiu ao nazismo e Hannah, depois de passar oito dias na prisão, deixou seu país natal. Morou em Paris, com Günther Stern, e, em 1941, já unida a um novo homem, Heinrich Blücher, e depois de uma estada em Portugal, sobrevivendo de grão-de-bico e repolho, conseguiu chegar aos Estados Unidos, onde fixaria residência, naturalizando-se americana em 1951.

Não por acaso, é essa fase da vida de Hannah que constitui o ponto alto da biografia de Laure Adler: foi nos Estados Unidos que ela escreveu seus livros de vulto. O relato do caso Adolf Eichmann é particularmente rico em detalhes acerca da impaciência de Arendt diante das sessões do tribunal e da celeuma provocada ao abordar em seu texto a conduta dos Conselhos Judaicos, que no início da II Guerra haviam aceitado fazer um inventário para os nazistas de suas comunidades, o que facilitou a repressão aos judeus.

Hannah costumava despertar paixões em homens e mulheres. Ela nunca cedeu às investidas do romancista austríaco Hermann Broch e também não aceitou se entregar ao poeta inglês (e homossexual) W.H. Auden, que disse amá-la; já com Hilde Fränkel, companheira do filósofo Paul Tillich, envolveu-se intimamente. Blücher – que teria formulado o conceito de "banalidade do mal" – sabia da relação entre as duas.

A amizade autêntica era um bem precioso para Hannah. Karl Jaspers, que orientou sua tese de doutorado, foi um de seus amigos eternos: só se separaram com a morte dele, em 1969. A escritora americana Mary McCarthy, igualmente, fez parte desse grupo seleto; a correspondência entre ambas é um documento valioso, que Adler talvez pudesse ter explorado mais. Quando Hannah morreu, em 1975, foi Mary quem assumiu a tarefa de organizar seus datiloscritos e editar A Vida do Espírito, a última obra da filósofa – que, injustamente, não gostava de ser chamada dessa maneira.

A BANALIDADE DO MAL

Um dos conceitos fundamentais de Hannah Arendt, a "banalidade do mal", aparece em Eichmann em Jerusalém. Ela voltou ao tema em uma conferência de 1970:

"Há alguns anos, em um relato sobre o julgamento de Eichmann em Jerusalém, mencionei a 'banalidade do mal'. Por mais monstruosos que fossem os atos, o agente não era nem monstruoso nem demoníaco; a única característica específica que se podia detectar em seu passado, bem como em seu comportamento durante o julgamento e o inquérito policial que o precedeu, afigurava-se como algo totalmente negativo: não se tratava de estupidez, mas de uma curiosa e bastante autêntica incapacidade de pensar".


Trechos de Nos Passos de Hannah Arendt, de Laure Adler
I CRIANÇA FEBRIL
Hanover, Baixa Saxônia, janeiro de 2004. O avião sobrevoa a cidade cercada pelas curvas do rio Leine, cavalos galopam pelos prados de um verde terno iluminado pelo sol de inverno. O contraste com a descoberta da cidade será ainda mais brutal. Uma longa rua de pedestres, uma sucessão de edifícios de concreto, bancos, corretoras. A cidade natal de Hannah Arendt, onde Leibniz se estabeleceu a partir de 1676 como bibliotecário e historiador na corte do ducado, foi destruída pelos bombardeios na Segunda Guerra Mundial. 1 Hannah Arendt nasceu em Linden em 1906, nos arredores de uma cidade que foi arrasada. Será essa a razão de nunca mais ter desejado retornar a seu local de nascimento nas diversas visitas à República Federal da Alemanha depois de dezembro de 1949? Ela passou a infância, desde os dois anos, e a adolescência em outra cidade, igualmente destruída, a cidade de Kant: Königsberg, na época pertencente à Prússia Oriental, hoje, Kaliningrado.
Hanover se lembra dela. Uma rua e uma escola têm o seu nome. Todos os anos, a universidade organiza "jornadas Hannah Arendt", nas quais filósofos do mundo inteiro vêm comentar a sua obra. Uma sala consagrada a ela - com objetos pessoais: sua maleta de couro marrom com suas iniciais em dourado, suas canetas, seus diplomas e suas condecorações (protegidos com vidro, o prêmio da universidade de Copenhague, o prêmio Sigmund Freud, o certificado da academia de Darmstadt e a medalha da Universidade de Chicago) e todos os seus livros traduzidos para o alemão - acaba de ser inaugurada no primeiro andar da biblioteca municipal da cidade. Que ironia do destino para uma mulher que não gostava dos símbolos ostentatórios de reconhecimento!
Num café no centro do bairro de pedestre, os professores Detlef Horster e Peter Brokmeier me explicam o interesse dos estudantes por Hannah Arendt. O primeiro, nascido em 1942, é professor de filosofia moral, o segundo, nascido em 1935, de ciências políticas. Todos os dois ministram cursos sobre Hannah Arendt. Brokmeier lembra que em Berlim Ocidental, no final dos anos 1960, sua reputação era péssima: "Fazíamos parte de um grupo da esquerda radical. Depois de tê-la ignorado durante longo tempo, até porque não era possível encontrar suas obras nas prateleiras da biblioteca da universidade onde eu trabalhava, tive vontade de saber o que escrevia essa mulher de quem meus camaradas falavam tão mal. Eles me diziam que ela colocava o comunismo e o nazismo no mesmo nível. Acrescentavam que ela confundia todos os valores e que era uma ideóloga perigosa. De tanto ouvir falar mal, acabei ficando interessado em saber mais: quis ir às fontes. Descobri seu livro Origens do totalitarismo. Parei logo de lê-lo. Estava escandalizado. Foi preciso muito tempo e um longo desvio pela história das idéias políticas para retomá-lo. Minha incompreensão não vinha dos textos de Hannah Arendt, mas dos meus preconceitos marxistas. Eu havia pesquisado durante longo tempo as possibilidades de tornar o marxismo sensato. Já tinha entendido que seria difícil. Até o dia em que percebi que seria impossível. Graças a Hannah Arendt. Foi um pouco antes da queda do Muro."
Sua obra é incômoda, tão forte que pode mudar nossa visão de mundo e nossas tomadas de posição, abrir portas, dar impulso. Mas é também impossível de ser apoderada. Em movimento permanente, o pensamento de Arendt nunca se deixa reduzir a uma opinião, uma categoria, uma ideologia. Não se deixa fechar num grupo político. Ela mesma tentou redefinir e circunscrever o que é a política: "A política baseia-se na pluralidade dos homens", escreve ela em 1950. "[...] o homem é a-político. A política surge no entre-os-homens; portanto totalmente fora dos homens. Por conseguinte, não existe nenhuma substância política original."2 Ela própria não se importava em ser rotulada como de direita ou de esquerda e dava a impressão de não se preocupar com isso. Qual era, então, a sua preocupação? Poder pensar com toda a liberdade, alimentar-se de leituras até não poder mais, como testemunha a sala que lhe é dedicada na biblioteca de Hanover.
Nas prateleiras, inúmeros livros, algumas correspondências, o exemplar original de Eichmann em Jerusalém, minuciosamente anotado, com correções em alemão e em inglês em mais de um terço do livro - prova, caso houvesse necessidade, de que levou em conta certas críticas que lhe foram dirigidas e de que verificou algumas de suas afirmações após a tempestade de ódio desencadeada pelo texto.
É na época do processo Eichmann, na primavera de 1961, que o jovem Horster escuta pela primeira vez o nome de Hannah Arendt. Ele descobre, com o processo, a existência dos campos de concentração. Transtornado, quer saber as razões do silêncio familiar: "Perguntei à minha mãe: 'Por que você nunca me falou dos campos?' Ela me respondeu gritando: Nunca falaremos sobre isso em casa.' No dia seguinte, triunfante, minha avó diria que, no processo, uma jornalista americana chamada Hannah Arendt acabava de explicar que os judeus também eram culpados. 'Enfim uma mulher que diz a verdade.'" Horster ficou sabendo nesse mesmo dia que sua mãe e sua avó haviam pertencido ao partido nazista.
Linden, o local de nascimento de Hannah, é hoje um subúrbio próximo de Hanover. Antes da Primeira Guerra Mundial, Linden era um grande povoado de mais de vinte mil habitantes, onde vivia uma população operária. Atualmente, Linden se tornou um bairro chique, meio burguês, onde vendedores de frutas e legumes orgânicos dividem a paisagem com galerias de arte contemporânea. Linden foi poupada durante a guerra e o edifício burguês dos anos de 1880 onde Hannah nasceu, na pequena praça do mercado, não foi restaurado. Uma placa comemorativa foi pendurada, mas aqui ninguém sabe quem é Hannah. Tive uma idéia de como era o bairro na época de seu nascimento conversando com o farmacêutico que mora no térreo do imóvel. Ele some nos fundos da loja e volta com uma foto sépia do edifício no início do século. À exceção das charretes e da arquitetura rococó do quiosque do jornaleiro, nada mudou nesse ambiente sossegado e pequeno-burguês onde Hannah viveu seus dois primeiros anos de vida.
De seu pai, Paul Arendt, sabe-se que trabalhou numa usina de máquinas agrícolas de Linden.3 Ele deixara sua cidade natal de Königsberg para ir a Berlim, onde viveu os primeiros anos de seu casamento. Paul fizera seus estudos na Albertina, a prestigiosa universidade de Königsberg, de onde saiu formado. Único filho homem, ele tinha uma irmã, Henriette, que Max tivera em seu primeiro casamento, com Johanna. Depois da morte desta, Max casara com sua cunhada Klara, conhecida pelo mau-caráter, a intolerância e a arrogância. Terá sido para fugir dessa madrasta, que era também sua tia, que Paul propôs à sua jovem esposa, Martha, deixar o ambiente, sem dúvida protetor, esclarecido, culto, porém pesado, de sua própria família para ir morar em Linden? Martha também nasceu em Königsberg. Seu pai, Jacob Cohn, nascido na atual Lituânia em 1830, imigrou em 1852 e, uma vez que Königsberg se tornava um ponto estratégico para o comércio de chá, abriu uma sociedade de importação. Jacob revelou um grande talento comercial, optando por importar chás russos em vez de ingleses, que estavam na época em posição de força no mercado. Foi assim que a Sociedade J. N. Cohn se tornou a primeira sociedade de chá da cidade. Sua mãe, Fanny Spiero, era uma emigrante russa com quem Jacob casou-se em segundas núpcias. Ele teve três filhos do primeiro casamento, e quatro com Fanny. Que tribo! Quando morreu, em 1906, deixou um capital de peso para a avó de Hannah e seus sete filhos. Fanny falava alemão com um forte sotaque russo. Pode-se vê-la vestida com roupas eslavas bem rústicas nas raras fotografias do álbum de família que Edna, a sobrinha de Hannah, me autorizou a consultar. Martha tem o jeito de uma moça firme, decidida, com os pés no chão. Ela não sorri, e até parece séria demais. Ao seu lado, Fanny. A avó e a mãe de Hannah eram e continuaram sendo sempre muito próximas. Todas as duas perderam seus maridos muito jovens. A viuvez as aproximava. A família de Hannah teve, sob vários aspectos, a aparência de um clã feminino. Juntas, as mulheres se unem contra a adversidade, vivem juntas, viajam em férias, dividem tudo. Hannah herdou a personalidade da mãe: corajosa, independente, orgulhosa, avessa à mentira, às vezes correndo o risco de chocar, sem medo de nada nem de ninguém.
"Temperamento vivo"
Hannah, Johannah no estado civil, nasce em casa, como de costume na época, em 14 de outubro de 1906, um domingo, às 21h30, depois de vinte e duas horas de contrações. A mãe, num caderno intitulado Unser Kind, "Nosso bebê", conservado nos Arquivos Arendt na Biblioteca do Congresso, em Washington, anotou a evolução do bebê a partir de 3 de dezembro de 1906. Esse diário, uma espécie de caderno escolar, é um documento manuscrito no qual Martha anotava a evolução física e psicológica da filha. Ele acompanhou Martha aos Estados Unidos, e Hannah Arendt o guardou preciosamente. Hannah, desde as primeiras semanas de vida, sofre de eczema. A mãe encontra vários defeitos na filha: mãos e pés grandes demais, voz rouca e muita excitação.
Hannah dorme profundamente desde o nascimento. Adulta, conservaria o prazer desse sono pesado. Ela sorri na sexta semana, "brilha" desde a sétima. A mãe adora essa palavra. Hannah, pequenina, expressa as suas emoções: ri com as canções alegres, chora com as sentimentais. A mãe percebe que ela precisa dos outros: "Ela não gosta de ficar sozinha."
Aos onze meses, Hannah cantarola bastante, com uma voz forte. Aos doze, adora ficar ao lado do piano, escutar e cantar. Aos quinze meses - é cedo! - sabe responder à pergunta: "Quem é você?" Aos dois anos e meio, confundem-na com uma criança de quatro anos. Seu temperamento é muito vivo, muito alegre, e sua curiosidade enorme. A mãe observa o quanto a pequena, "muito doce", gosta de se encolher em seus braços.
Em 1909, a família sai de Linden rumo a Königsberg. Mais tarde, a cidade mudaria de nome, de população, de configuração: em 1946, data da anexação de uma parte da Prússia Oriental à União Soviética, passa a se chamar Kaliningrado, em homenagem a Kalinin, antigo presidente da URSS. Hoje, é um enclave russo cercado pela Polônia e a Lituânia, países membros da União Européia. Hannah nunca pôde voltar aos lugares onde passou a infância e a adolescência, pois a cidade, à beira do mar Báltico, transformada num importante porto militar, era proibida aos estrangeiros. É preciso ir ao Instituto Histórico Alemão consultar antigos atlas fotográficos e livros de história para tentar imaginar a atmosfera dessa cidade provinciana e sossegada que era Königsberg nos tempos da juventude de Hannah. Num desses livros de imagens, um pintor de domingo imortalizou uma cena de rua da cidade no início do século. O tempo está bonito. É verão. As mulheres vestem saias compridas, camisas de renda, grandes lenços na cabeça. Os homens estão todos de terno e gravata e chapéu. No terraço de um café, uma mãe e sua filha têm os lenços abaixados sobre a nuca mas continuam de luvas. A mãe observa os transeuntes, a filha lê o jornal.
Em Essen, na Renânia do Norte-Vestfália, na casa de Edna, a sobrinha de Hannah, encontro num cartão a foto da menina no colo do avô Max, que a adorava: no pátio em frente à casa, ela sorri para a objetiva nos braços do ancião. Martha não gosta de se separar da filha. No dia 19 de fevereiro de 1911, ela anota: "Hannah suporta muito bem o inverno. [...] Temperamento: muito vivo, interessa-se por tudo o que a rodeia. Nenhum interesse pelas bonecas [...] Com seus quatro anos, ela é uma pequena tão grande e segura que as pessoas a tomam por uma menina que vai à escola."4
"Ela tem cabelos compridos e muito bonitos. É linda e saudável. Canta muito, quase com paixão, mas com muitas notas falsas [...] Não vejo nenhum talento artístico e nenhuma habilidade manual: por outro lado, vejo uma precocidade intelectual e talvez uma capacidade particular, como por exemplo o senso de orientação, a memória e uma capacidade de observação afiada. Mas antes de tudo um enorme interesse pelas letras e os livros..."
Martha e Paul se estabelecem em Königsberg em 1910 devido à doença desse último, que logo o impedirá de trabalhar. Nunca, no caderno da mãe, o nome da doença é mencionado, e isso por um motivo: ela é vergonhosa. O clã familiar, tanto do lado do pai quanto do lado da mãe, será solidário a essa jovem obrigada a tomar conta do marido dia e noite.
As duas famílias são judias liberais, cultas e com uma boa situação financeira. Martha, como a maioria das mulheres de sua classe e geração, fez seus estudos em casa com um preceptor, e depois foi estudar música e língua na França durante três anos. Apaixonou-se pelas novas teses sobre educação que preconizavam o respeito pela individualidade das crianças em vez de aniquilar sua personalidade pela obediência. Era ligada a um grupo de mulheres que tinham aberto jardins de infância e escolas de ensino fundamental de um novo modelo. Sem dúvida, é essa a razão pela qual decide escrever este diário íntimo sobre a filha, um verdadeiro diário de bordo dos primeiros anos dessa menina que ela considera, desde cedo, uma pessoa especial.
Martha, como o marido, é mais culta e mais engajada do que os próprios pais. Todos os dois, socialistas desde a juventude, compartilham o ideal de um mundo mais igualitário e aderem a um partido ainda ilegal na Alemanha. Paul e Martha vivem no fervor da alimentação intelectual. Hannah falará até o fim da vida da dívida com o pai, que lhe permitia pegar os livros de sua biblioteca, dentre os quais os clássicos gregos e latinos.6 Hannah não tem dificuldade em aprender a ler. A mãe se dá conta, quando a coloca num jardim de infância, de que ela já havia aprendido a ler sozinha. Ela passa o tempo imitando a professora, o que deixa Martha satisfeita.

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